Free Rainer: a arrogância do "intelectualismo revolucionário".
Posted: terça-feira, 25 de junho de 2013 by Paraíba in
Nota: 5,5

Escavo meus ossos, minha alma
Sou um arqueólogo do próprio ser.
Tenho a necessidade, quase viciante,
De explorar, descobrir aspectos do eu.
E cada vez mais me decepciono com
As colunas dessa cidade (não eterna)
Que se desmanchou em meu espectro.
-Estou no passado.
Sou uma Pompéia, quebrando a minha essência.
Sou a atualização constante, a vontade de ser.
Sou o filho sem pai e o pai sem filho.
Sou o eterno mendigo de heranças.
Sou o eterno mendigo de herdeiros.
Sou o que diz: "Eu quero um legado! Eu quero! Eu quero!"
Sou também o que leu a morte dessa palavra, querer.
-Estou no presente.
Olho a minha janela e vejo carros voadores.
É o futuro sonhado, a arquitetura do que tivemos.
O futuro pertence ao passado. É fruto
Da imaginação fértil dos leitores, dos ouvintes,
Dos onanistas sociais.
O futuro é o caos. A destruição de
Todas as hipóteses, todos os estudos.
É a ciência de queimar teses.
-Estou no vazio.
O título é bom, mas e o poema? Onde está?
Aliás, por que tudo é título nessa vida já não muito feliz,
E não nota de rodapé?
O que tem no negrito não é menos palavra
do que o que tem o asterisco.]
O poeta é um crítico.
Ele é um excluidor natural.
Separando, filtrando, escolhendo.
Definindo.
O poeta é um ladrão.
Ele rouba a palavra e usa como quer, sem critério.
Tomando, furtando, esgueirando.
Raptando.
Aproveitando o espaço, que não foi dos melhores,
Gostaria de dizer que se eu fosse você,
Seria a epígrafe mais bonita,
Do poema mais sujo.
O grito é diferente, depende
para quem, para que. Para quando.
A traqueia, a corda, a raiva.
A voz que tenta freneticamente ser estrela, ator.
E por, justapor, frutacor:
VER-ME-LHO.
Aquele que berra não precisa ouvir,
nem aprender.
No meio da confusão de ondas sonoras,
Multilaterais, incríveis, adjetivas, virguladas.
Encontrei-me com um nome, um RG e um telefone.
Mesmo sem pertencer à dita cuja humanidade.
Os beijos de fogo e fumaça,
Não respeitam família, não respeitam a dor.
Só respeita o fogo a fumaça,
Só respeita a fumaça o fogo.
A fumaça tem o gosto estranho
De entrar em lojas de discos usados
E comprar só as músicas tristes
Pra ressoarem em nossas almas.
Mas é da tua carne, da tua forma, do teu corpo
Que vem a solução.
Carne, que parece inválida perante a morte
Traz consigo a função sagrada
De compor a sinfonia.
Sai dela um piado fino, delicado,
Quase um sussurro.
A música de todas as mocas doces.
A música que só ouvirá quem sabe a dor
Que passam os sensíveis.
E esse som, tão fraco
Há de quebrar todos os discos de todas as lojas
(de todas as músicas tristes)
E permanecer, depois da morte,
Depois da tristeza,
Depois de mim.
Pra Mariana, pro Marcelo, pro Pedro, pra Allana, pra Maria e pra todos aqueles que serão jovens eternamente.