Virtualidades e um novo design.

Posted: domingo, 31 de julho de 2011 by Paraíba in
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Nunca fui dado a virtualidades. Sempre me incomodei em aprender a usar computadores, vídeo-games e etc.


Meus mais caros amigos, ao contrário, sempre foram "micro-especialistas" no ramo, o que as vezes até me deslocava do centro das conversas. Nunca sabia sobre os novos lançamentos da nintendo, ou se um netbook era uma compra mais acertada que um computador convencional.

Sempre preferi aquele ideal mais romântico, mas cavalheiresco. Sempre preferi meus livros, meus filmes, a solidão de minha casa. Ou mesmo as ruas, as comunicações de carne e osso, onde se pode sentir o calor humano da alegria, ou o aço gelado da tristeza.

Mas nunca fu ide desprezar as paixões de terceiros. Hoje em dia, ser íntimo do fio e do cobre é essencial. Ou, pelo menos, ter amigos que saibam manejar muito bem tudo o que for relacionado a eles.

O novo design do Problema Constante foi feito pelo leal amigo João Feijó (@JFeijo), que, muito prestativo, se prontificou imediatamente ao trabalho. Ele captou exatamente o meu espírito, o que eu penso, meu estilo meio poético, meio Motor Rock. Acho que só um amigo poderia fazer esse tipo de coisa.

Podemos não ser bons em tudo. Mas precisamos de alguém que seja bom no que não somos.Valeu João!

Noite vazia.

Posted: sábado, 30 de julho de 2011 by Paraíba in
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É a pior parte da noite. Você não quer deitar, mas sabe que vai acabar indo pela solidão.

Sua mãe (ou pai, se você tiver um em casa) já dorme. Seus irmãos também. O barulho da televisão ligada levianamente na sala é misturado com o som da música que toca pela quinquagésima vez no seu Media Player, mas você esqueceu-se de tirar.

Seus amigos começam a anunciar em diversas redes sociais que estão indo. Você sabe que você é o próximo. O sono é como um serial killer daqueles filmes de horror baratos. Não importa aonde você esteja, ele vai querer te alcançar. Ceifando toda a sua potência, toda a sua vontade de se manter vivo.

Procurar alguma coisa pra fazer é muito mais que mera vadiagem. É um estilo de vida. É o Santo Graal daqueles que necessitam desesperadamente de entretenimento. Mas quanto mais os minutos passam, mais você sabe que a tarefa não vai ser concretizada.

Você podia muito bem ter achado algo para fazer hoje. Mas não. A internet é como o lendário Titã Cronos, devora os nossos minutos um a um até só restar um fiapo de nossa vontade, até nos limitarmos a subsistência.

A pior parte é quando você começa a refletir. Começa a pensar se os outros dias, se as outras noites serão assim. Esses minutos de aflição parecem não ter fim. Você quer a sua cama, quer o silêncio protecionista do sono, o maior paladino contra a depressão.

Que noite horrorosa. Que dia horroroso. Nada merece dar certo para você. Nada.

Então, aquela pessoa te liga.

“Não foi nada, só queria ouvir sua voz.”

“Tudo bem contigo né?”

“Dorme bem, viu?”

Que noite maravilhosa. Que dia maravilhoso. Tudo vai dar certo. Sempre.

Dedicado a Sabrina Barreto (@sabrinab_) que inspirou este post.

Poeira.

Posted: quinta-feira, 7 de julho de 2011 by Paraíba in
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Essa imagem acima é uma foto tirada por astrônomos.

O que ela representa?

Poeira espacial.

Pequenas moléculas de carbono, insignificantes perante a maestria dos astros.

Sabe o que é engraçado?

Nós viemos disso.

Sim,um hipopótamo, uma ratazana, até mesmo um leão não se impressionariam com isso.

Mas nós, seres tão superiores, nos surpreendemos toda a vez que ouvimos isso.

Não conseguimos aceitar o simples fato de que a nossa matéria prima é a mesma que tudo o que existe no universo.

A mágica da nossa existência é tão bela quanto a mágica da existência de uma reles bactéria.

Eu sou diferente.

Eu gosto disso. Gosto da idéia de que no fundo, não existem diferenças e que no início, todos nascemos de um mesmo pai (ou mãe, que me perdoem as feministas), de uma mesma fonte, de um mesmo átomo. Vejo poesia no fato do sol, das estrelas, dos planetas, tudo ter sido concebidos do mesmo ventre.

E o que podemos fazer com isso? Seguir em frente. Usar o que temos de melhor para um futuro novo, e não para tentar esquecer o nosso papel na totalidade do universo, mas confirmá-lo.

É um mundo muito grande, mas que pode se tornar pequeno, se nos lembrarmos que, no início, éramos todos a mesma coisa.

Ego.

Posted: by Paraíba in
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Ego.

Metáfora moderna de Cronos.

O ego nos gera, e o ego nos devora.

O maior problema do ego é a sua dualidade. Quando o ego ataca não dá sinal, pois, por mais que sejam fortes os indícios, ele nos impede de notar.

Do mais arrogante ao mais humilde dos seres, todos nós temos problemas com o ego. Basicamente, sem ele não andaríamos, pois a miséria humana nos evita definhar para preservar nosso ego.

Pensar no que os outros vão pensar de nós não é só uma filosofia medíocre, mas universal.

Por que os homens querem tanto ser poderosos? Por que as mulheres querem sempre ser bonitas? Tem exemplo maior do que nosso sistema de aprovação em instituições acadêmicas? O que são números? Será que somos tão frios, tão máquinas, tão metódicos a ponto de julgarmos a nós mesmos com coisas tão gélidas como os números?

Sim, nós somos.

Por que antes da carne, do osso e do sangue, somos EGO.

Nosso verdadeiro inimigo, nosso lado negro, aquilo que precisamos vencer para alcançar a perfeição.

Ou a apatia.

Crônicas do Paraíba #5 - Anjo caído (pt 3)

Posted: sábado, 26 de fevereiro de 2011 by Paraíba in Marcadores:
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Leo. Meu ex-quase-namorado.


Ele era o próximo.

Meus Deus, como foi que eu me meti nisso?

De uma hora pra outra eu tô no meio de um seriado policial. Um seriado policial ruim.

Não dá pra reclamar agora. Agora já estamos aqui.

Respiro, conto até dez. Eu tenho tempo. Afinal, Miguel nunca iria saber que eu sabia que era ele. Querendo ou não, eu fui muito rápida. Só se passaram...

MEU DEUS!

Já fazem 6 horas desde o enterro!

Quanto tempo eu fiquei aqui? Nem notei.

Tenho que correr, Leo pode estar em perigo.

Já estava quase saindo de casa quando me lembrei de ligar a TV. Se ele tivesse morrido, teria sido noticiado.

Nada. Em nenhum telejornal.

Hora de correr.

O apartamento de Leo ficava nem muito perto, nem muito longe do meu. Mesma avenida, mesmo bairro. Mas, como era uma avenida grande, era levemente distante.

Chego suada de tanto correr em frente ao prédio. O porteiro, Adoniram, ficou amigo meu da época em que namoramos.

-Boa tarde seu Adoniram!
-Boa tarde livinha, quer ver o Leo?
-Quero sim, muito obrigado!

Ele me deixa entrar no prédio e começa a interfonar, pra pedir autorização de passe pro morador. 30 segundos. 45 segundos. 1 minuto. Ninguém atende.

-Ele não está?
-Está sim, eu ví ele entrando e não vi ele saíndo. E estou aqui o turno inteiro.

Persistente ele interfona mais umas cinco vezes e desiste. Um frio sobe pela minha nuca.

-Olha...ele deve estar domindo ou coisa assim.

Eu sabia que era o fim da linha.

-Tudo bem seu Adoniram. Tudo bem.
-Era muito importante?
-Demais. Mais do que eu poderia te contar.

Ele pensa um pouco. Na certa está deduzindo que é alguma bobagem adolescente que era importante pra mim e não para ele.

-Olha...eu te conheço a um tempinho, e a mãe del gosta de ti...sobe livinha, sobe.
-OBRIGADO SEU ADONIRAM!

Disse isso em um abraço rápido no simpático idoso e passei correndo. Apertei o sexto andar no elevador. Que demora.

A porta do apartamento do Leo ficava sempre aberta. Isso aumentava ainda mais o meu medo.

Abri a porta. Gritei o nome dele. Procurei em cada cômodo, em cada lugar.

Ele não estava lá. Seu Adoniram era velho, devia ter se confundido. Isso era bem possível de ter acontecido. Agora eu tinha que achá-lo, custe o que custar.

Mas antes, notei uma coisa. O antigo roupeiro de Leo estava lá. Eu dei pra ele uma camisa, muito bonita, a um tempo atrás. Era a única coisa que ele guardava do nosso relacionamento.

No impulso abri o guarda-roupa para conferir se a peça ainda estava lá. Mas quando abri, preferi nunca ter feito isso.

Leo estava lá, ou pelo menos metade dele. Seu corpo, da cintura para baixo, havia desaparecido. A outra metade estava lá, em meio a um mar de sangue rubro vivo.

Enojada, eu chorei. Miguel tinha matado Marcus. Miguel tinha matado Leo. E todos esses crimes foram em poucas horas de diferença. A próxima seria eu. Talvez ele já estivesse lá, me esperando para dar o bote.

O que eu podia fazer? Quem sabe ele não estava certo. Quem sabe o mundo era injusto e cruel e pessoas como Miguel tinham o direito de se vingar.

Não!

O mundo pode ser cruel, mas o que três jovens apaixonados tem com isso? Existiam muitas outras maneiras dele ter se vingado do mundo, ao invéz de começar um surto homicida intenso que iria culminar em uma prisão dele.

A raiva limpou minhas lágrimas e clareou minha mente. Eu não ia morrer. Eu não podia morrer. Eu ia fugir e ia sobreviver. Não ia terminar como...
Espera.

Tem alguma coisa no corpo do Leo.

Era como...uma carta, um envelope pardo que eu nem tinha percebido no choque.

Com muito cuidado para não tocar no sangue, peguei o envelope.

Dentro, havia a mesma inscrição que foi encontraram na sala de Marcus, só que agora estava escrita a caneta. Lúcifer.

E uma letra de música. "Sympathy for the Devil", dos Rolling Stones. A letra falava sobre os feitos do diabo na história da humanidade e descrevia o próprio como um homem de bom gosto de estilo.

Miguel dava sua garantia. Se eu não tinha feito a conexão antes deveria fazer agora. Ele queria realmente que eu soubesse que Lúcifer era Miguel.

E os Rolling Stones eram a banda predileta dele.

Outro pensamento me veio a cabeça. Eu estava na cena do crime. O porteiro não viu a entrada nem a saída de de Miguel. Eu seria a primeira suspeita.

A perícia ia conferir minha vida em relação a de Leo. Ia ver que ele me dispensou. Ia ver que eu fiquei magoada com isso. Seu Adoniram testemunharia, quem sabe até seria punido por me deixar entrar.

Meu Deus. E se tudo isso fosse uma plano de Lúcifer? Se a grande vingança dele fosse me por na cadeia, como um grand finale macabro?

Agora não era mais um duelo por minha vida. Era um duelo por minha liberdade.

E eu daria tudo por ela.

(continua. adios e comemorem antis)



Crônicas do Paraíba #4 - Anjo Caído (pt. 2)

Posted: terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 by Paraíba in Marcadores:
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Não acredito nisso.


Marcus. O bonito. O inteligente. O invencível.

O morto.

Não pelo fato deu já ter ficado com ele, mas ele era bem amigo meu. Do tipo de ir almoçar em minha casa e vice-versa. Estava chocada, impressionada.

O telefone toca. É a Thânia, uma grande amiga minha, de infância. Nos conhecemos desde o maternal. Ela sempre estranhou o fato deu só ficar com guris mais velhos, como o Marcus por exemplo. Mas também era muito amiga dele. Quem não queria ser?

-Tu...viu o jornal? - disse ela em seu português coloquial.
- sim... chocada até agora.
-Sabe o Régis?
-Aquele que era o melhor amigo dele?
-Sim, tá em estado de choque, mas conseguiu me ligar. O enterro é amanhã. Vamos?

Claro que eu fui não é. Tive que ir.

Funeráis são momentos tensos em qualquer situação. Mas são ainda mais tensos se você não é membro da família. Você acompanha toda a dor e sofrimento da família da vítima, sem poder fazer muito para consolá-los, afinal você não tem nada haver com aquilo, pelo menos não de acordo com protocolos. Não sou escrava das aparências, mas protocolos tornam nossa vida mais fácil de lidar. E no fim, facilidade é o que todos querem.

Horas foram se passando. É impressionante como essas cosias passam mais rápido quando é alguém mais importante pra você. Nesse caso, é uma espécie de ex-melhor amigo. Um guri mais velho que eu fiquei, ficou rico e poderoso e nós nunca mais nos falamos. Isso.

Uma tia esquisitona dele se aproxima de nós dois. Já tinha ouvido falar dela. Drogada, várias vezes tinha passado por reabilitações. Era bem mais nova que a mãe do Marcus, tinha apenas uns 5 anos de diferença em relação a ele. Ela se aproximou de nós duas. Fiquei morta de medo, mas a curiosidade de Thânia venceu o meu anseio.

-Que horror, que horror...
-É mesmo terrível. -falou a intrometida Thânia.
-A morte? Não isso não é nada...o pior foi como mataram.
-Soube das...facadas - e baixou a voz para dizer a última palavra.
-Isso também não foi nada.

Agora até eu me aproximei curiosa.

-O pior foi o bilhete.
-Bilhete? Que bilhete?
-Vocês não viram os jornais de hoje? Só a notinha de ontem?

As duas responderam em negativa. O clima ia ficando cada vez mais tenso.

-O corpo foi encontrado desnudo, coberto de sangue pelo esfaqueamento. Em baixo tinha apenas uma folha de papel, com uma palavra escrita.
-E que...que palavra era essa?
-A palavra era "Lúcifer".

Aquela mulher falava tudo aquilo com um certo prazer doentio. Isso estava me enojando. Tive que sair dali.

Pesquisando na Internet, nos melhores sites de notícia do país, pude notar que ela estava certa. Realmente o bilhete havia sido encontrado. A imprensa, inclusive, citava esse como o possível pseudônimo do assassino.

Pessoas normais desligariam o PC. Ficariam tensas com a situação, mas uma hora passaria. A folha de papel representaria apenas um sinal de um crime hediondo. E só.

Mas eu não estava no meu estado normal. Um frio arrepiava minha nuca. Entrei em uma famosa enciclopédia virtual. Digitei "Lúcifer".

E a resposta me assustou.

"Segundo a Igreja católica, Lúcifer era o mais forte e o mais belo de todos os Querubins. Então, Deus lhe deu uma posição de destaque entre todos os seus auxiliares. Segundo a mesma, ele se tornou orgulhoso de seu poder, que não aceitava servir a uma criação de Deus, "O Homem", e revoltou-se contra Deus. O Arcanjo Miguel liderou as hostes de Deus na luta contra Lúcifer e suas legiões de anjos revoltosos; já os anjos leais a Deus o derrotaram e o expulsaram do céu, juntamente com seus seguidores. Desde então, o mundo vive esta guerra eterna entre Deus e o Diabo; de seu lado Lúcifer e suas legiões tentam corromper o homem; do outro lado Deus, os anjos, arcanjos, querubins e Santos travam batalhas diárias contra as forças de Lúcifer."


Lúcifer era um anjo bom. Se tornou mal e foi expulso por Miguel, se tornando um anjo caído.

Só isso me bastava. Miguel era um católico fervoroso, conhecia essa história de cor e salteado. Seu lado bom, seu lado angelical morreu, e ele renegou o seu nome, assumindo um que combinasse mais com os planos que ele podia estar bolando a meses, anos.

Miguel era o assassino. Miguel era Lúcifer.

E eu não estava mais a salvo.

(continua. adios e comemorem antis)


Crônicas do Paraíba #3 - Anjo caído. (pt.1)

Posted: sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011 by Paraíba in Marcadores:
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Espero mesmo que tenham gostado de Fim da Linha, pois consumiu algumas horas de esforço e criatividade. Nossa próxima história tem alguns pontos de diferença em relação a última. Primeiro que usarei uma protagonista mulher, algo que será um desafio pra mim. Segundo que será uma história de amor, mas com um "quê" de suspense, algo mais mítico e crú que o outro conto. Boa leitura!

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"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me."

Eu queria ter olhos assim, Mentira, adoro meus olhos azuis. Mas na verdade o que eu queria era alguém que reparasse em mim tão bem quanto o Dom Casmurro.

Estou adorando esse livro.

Sempre adorei livros, até livros como esse, que eu tenho que ler por obrigação para o colégio. A propósito, vocês nem me conhecem ainda.

Meu nome é Lívia, tenho 17 anos e estou no terceiro ano do ensino médio de uma escola católica. Não me considero bonita, mas também não me considero feia. Os guris não me acham feia e é isso o que importa no final. Não sou daquelas gurias que quer ficar bonita pra agradar outras gurias (ou melhor causar inveja) embora sinta um pouco de prazer feminino em fazer isso. Quem não sente?

Antes que pergunte, sim, eu estou solteira. Não que eu reclame disso, afinal nós adolescentes somos eternos solteiros. Mas, por ser uma pessoa um pouco mais lida que as outras da minha idade, não posso negar que me incomoda o fato de ninguém realmente gostar de mim, e sim só me usar como objeto por beleza. Eu já gostei de muitos guris, mas eles nunca quiseram nada sério. Isso incomoda, demais.

Já gostaram de mim uma vez. Sei que não é muito, mas gostar por gostar não é gostar. Pra se gostar mesmo tem que necessitar daquela pessoa, ver ela tem que ser algo indispensável, algo implacável em sua vida. Não pode simplesmente querer tê-la, tem que querer senti-la em todos os sentidos, desde o beijo até uma conversa banal. Tem que gostar das qualidades, e amar os defeitos. Muitas pessoas nunca tiveram alguém que realmente gostasse delas. Eu só tive um.

Miguel. Seu nome era Miguel.

Aconteceu no primeiro ano. Miguel era um daqueles rapazes legais, amigos de todos, mas a última pessoa que alguém iria esperar ficar. Não me levem a mal, não sou superficial. Nem ele era estupidamente feio. Mas, por algum motivo (talvez até científico) eu não me imaginava ficando com ele, simplesmente.

Acho, hoje, que subestimei o que ele sentia por mim. Pensava que era bobagem, que era passageiro. Gostava mesmo dele, mas como amigo, como um cara divertido que fazia os nossos dias cansativos em sala de aula passarem mais rápido. Nunca imaginei que duraria.

Mas durou, e muito. Quando já estávamos no final do ano, isso não passava e eu não sabia o que fazer. Durante esse período de mais ou menos 8 meses, fiquei com dois caras. O primeiro era o Marcus. Bonito, lindo, inteligente, um ano mais velho, o cara mais desejado no colégio. Pra mim ele era apenas um carinha legal que ficou comigo em uma festa e só. O problema é que o Miguel estava lá na festa, e eu soube que quem teve o azar de testemunhar a fúria dele desejou não ter visto.

O segundo foi o pior. Era o Lucas. Não era bem o melhor amigo do Miguel, mas os dois eram bem chegados. O Miguel amava rock, de todas as maneiras e o Lucas tocava quase todos os instrumentos. O interesse em comum os levava a várias horas de conversa sobre o assunto. Fiquei com o Lucas no colégio mesmo, e fomos ficando por um mês mais ou menos. Não rolou namoro só por que ele não quis.

Nesse período, o Miguel se trancafiou no quarto por dias a fio. Faltava montes de aula, não saía mais com os amigos, não queria mais nada nem ninguém. Eu me sentia culpada, mas o que podia fazer? Eu gostava mesmo do Lucas, e queria ficar com ele. Até hoje desconfio que o Lucas sentiu pena do Miguel e por isso não seguiu comigo. Isso me dá certa angústia.

O fato é que no fim das aulas, o Miguel sumiu. Nunca mais vi ele em lugar algum. Os amigos não conseguiam mais falar com ele. Telefone não atendia. Redes sociais foram deletadas. Ninguém mais viu ele em canto nenhum depois disso. Até o pai (a mãe dele tinha morrido no seu nascimento) não era mais visto. Ele sumiu das nossas vidas e, tivemos a infelicidade de reparar que sentimos sua falta.

Mas os anos se passaram e Miguel foi esquecido. Terminei de ler o capítulo do livro e resolvi parar de divagar um pouco. Vou ligar a televisão.

Jornal Nacional. Adoro ver notícias lidas por uma voz grossa. Parece que foi algo sério, vamos ver.

"Boa noite. No escritório regional da Petrobras, o engenheiro químico Marcus Laerte Vianna foi encontrado morto em cima de sua escrivaninha. A perícia informa que a provável causa de sua morte foi por esfaqueamente constante, devido as marcas encontradas em seu pescoço. As investigações seguem, embora nenhum suspeito tenha sido detectado. A empresa que cuidava da segurança do escritório informa que misteriosamente todas as câmeras do recinto falharam durante meia hora, ligando o alerta vermelho que aparentemente não atingiu o local do assassinato. Mais informações no Jornal da Manhã".

Engenheiro da Petrobras? Não era isso que o Marcus fazia? Vianna...SIM!

Era esse o sobrenome dele!

Alguma coisa muito estranha estava acontecendo. E o arrepio na minha nuca era inevitável.

(continua. Adios e comemorem antis)